Com o início dos treinos, a escolha do calçado desportivo infantil torna-se uma dúvida recorrente nos consultórios e nas conversas de bancada: as sapatilhas do dia a dia servem também para o desporto?
A resposta é quase sempre não. Escolher calçado desportivo infantil não é como escolher roupa: não basta que a criança goste do modelo, nem que este pareça calçar bem na loja. O calçado tem de ser adequado a duas coisas em simultâneo: ao pé daquela criança, com a sua forma, o seu apoio e o estádio de crescimento em que se encontra, e às exigências mecânicas da modalidade que pratica. Correr, jogar futebol num piso sintético e treinar basquetebol num pavilhão pedem apoios, travagens e mudanças de direção diferentes.
Nenhum dos dois critérios se avalia a olho. Um sapato pode parecer confortável e, ainda assim, não corresponder ao apoio da criança nem a uma particularidade biomecânica que só a observação clínica identifica. O preço e a marca pesam na decisão, mas não garantem nada disto: comprar um número acima, à espera de que “dure a época toda”, faz o pé deslizar dentro do sapato, compromete a estabilidade e muda o modo como a criança pisa e trava.
Antes de escolher o modelo, confirme o ajuste
O número indicado na etiqueta é apenas uma referência: dois modelos do mesmo tamanho nominal podem diferir substancialmente em largura e em forma. A desadequação entre o comprimento do pé e o comprimento interno do sapato é, aliás, mais frequente do que se costuma assumir. Uma revisão sistemática publicada no Journal of Foot and Ankle Research encontrou que entre 63% e 72% dos participantes calçavam sapatos que não acomodavam corretamente o comprimento ou a largura do pé, com associação documentada a dor e a deformidade dos dedos menores (Buldt & Menz, 2018).
Na loja, experimente sempre os dois pés, com as meias que a criança vai usar nos treinos. Aperte o calçado e deixe-a caminhar e, se possível, correr um pouco. Pergunte onde sente pressão, se o calcanhar levanta ou se os dedos ficam comprimidos. Observe, em particular:
- Se existe espaço à frente dos dedos e largura suficiente para os movimentar. A Association of Paediatric Chartered Physiotherapists recomenda cerca de um centímetro de folga entre o dedo mais longo e a ponta do sapato.
- Se o calcanhar fica seguro dentro de um contraforte estável, sem escorregar a cada passo.
- Se o sistema de aperto (atacadores, fivela ou velcro) imobiliza o pé sem o comprimir.
- Se existem costuras ou zonas rígidas a causar desconforto.
O calçado deve ser confortável desde a primeira experiência. Não conte com o uso para “amaciar” um modelo que já aperta na loja: se for possível torcer facilmente a sola, o sapato é demasiado mole para dar suporte; se resistir a qualquer flexão, pode limitar o movimento natural do pé. Os pés continuam a crescer, de forma pouco previsível: volte a verificar o ajuste ao longo da época, mesmo que as sapatilhas pareçam novas.
Estes critérios servem para afastar, em loja, os erros mais evidentes. Mas resolvem apenas parte do problema: dizem se o sapato serve, não se é o sapato certo para aquele pé fazer aquela modalidade. Essa segunda pergunta pertence à avaliação podológica, não à prova de loja nem à opinião de quem vende. Só um exame ao pé identifica particularidades de apoio, flexibilidade ou alinhamento que nenhuma etiqueta consegue prever.
Futebol: o piso é do treinador, o pé é do podologista
A sola das chuteiras deve corresponder ao piso de treino, mas só uma avaliação podológica diz se esse modelo se ajusta ao pé da criança. Relva natural, relva sintética ou pavilhão no caso do futsal: essa informação só o clube ou o treinador a têm. Obtenha-a antes de ir à loja — pitons moldados para relva natural, pitons mais curtos e numerosos para relva sintética, sola lisa para pavilhão.
O que fazer com essa informação é outra questão. O tipo de sola é só metade da decisão; a outra metade é o pé que vai calçar a chuteira. Duas crianças a jogar no mesmo piso, com o mesmo modelo, podem precisar de ajustes diferentes consoante a forma do pé, a rigidez de contraforte de que beneficiam ou a largura de que precisam. A informação sobre o piso, isolada, não responde a isto.
A escolha do calçado é um dos fatores considerados nos relatórios clínicos sobre lesões no futebol jovem. O relatório da American Academy of Pediatrics sobre lesões no futebol em crianças e adolescentes inclui o calçado e as características do piso entre os elementos associados ao risco de lesão, ao lado do treino neuromuscular de aterragem e travagem, que é a estratégia de prevenção mais sustentada pela evidência (Watson & Mjaanes, 2019). Na prática, reveja o ajuste das chuteiras de uma época para a seguinte: o pé que calçou o número 33 em setembro raramente é o mesmo em maio, e quanto maior a carga semanal de treino, mais cedo vale a pena rever.
Basquetebol e voleibol: atenção aos movimentos laterais
Escolha sapatilhas de pavilhão, feitas para saltos e mudanças de direção, não sapatilhas de corrida; se o pé continuar a deslizar em vários modelos, o problema já não é de loja, é de avaliação. Nestas modalidades, a criança salta, trava e muda de direção com frequência: exigências mecânicas diferentes das de uma corrida em linha reta. Ao procurar sapatilhas, indique que serão usadas num pavilhão e para qual modalidade.
O calçado de pavilhão (court shoe) é feito para estas deslocações multidirecionais: sola com aderência em todas as direções e, muitas vezes, uma gáspea mais alta para dar suporte ao tornozelo durante saltos e aterragens. A American Academy of Orthopaedic Surgeons associa estas características especificamente a este tipo de calçado. Uma sapatilha de corrida, otimizada para o movimento para a frente, tem outra geometria e outro amortecimento, e não é a escolha mais indicada para treinos regulares de basquetebol ou voleibol. Como referência prática, a própria AAOS sugere que, a partir de duas sessões semanais de uma modalidade, justifica-se investir em calçado específico para essa modalidade, em vez de recorrer a um modelo genérico.
Ao experimentar, verifique se o pé se mantém seguro dentro da sapatilha desde o primeiro aperto. Apertar mais os atacadores não deve compensar um modelo demasiado largo: se for preciso fazê-lo para o pé não deslizar, o número ou a forma não são os corretos. Pode haver uma característica do pé (largura, tipo de apoio, mobilidade do tornozelo) que justifica orientação podológica antes da próxima compra.
Dança, ballet e ginástica: duas avaliações, não uma
O tipo de sapatilha depende da disciplina e vem sempre da escola; se o pé está preparado para essa disciplina, sobretudo para a passagem a pontas, é uma avaliação podológica, não técnica. O material a comprar (sapatilha de meia-ponta, sapatilha inteira ou dividida, ou simplesmente descalça) depende dos exercícios e do nível de aprendizagem. Há, no entanto, uma segunda pergunta que a escola não responde, porque não é da sua competência: se o pé daquela criança está preparado para o que a disciplina vai exigir.
No ballet, esta distinção é clara. Como sublinha o Children’s Hospital Colorado, a pergunta pertinente sobre a passagem a pontas não é “a que idade pode a criança começar a dançar en pointe”, mas “está esta criança pronta para dançar en pointe”: a maturidade musculosquelética, o controlo motor e a maturidade emocional variam tanto entre crianças da mesma idade que nem todas as de doze anos estão prontas para as pontas, e algumas de dez anos já estão. A professora ou o professor avalia essa prontidão com testes funcionais de força, alinhamento, equilíbrio e controlo técnico: é uma avaliação de competência, feita por quem ensina a disciplina. O que essa avaliação não substitui é o exame ao próprio pé: a estrutura óssea, a mobilidade da articulação do primeiro dedo ou uma alteração que torne as pontas desaconselhadas nesse momento são questões clínicas, não técnicas, e cabem à avaliação podológica, idealmente antes de surgir uma queixa.
Antes de encomendar, peça ao professor a indicação do tipo de sapatilha; o ajuste ao pé confirma-se em loja, mas a adequação do pé à exigência da disciplina é uma questão clínica.
Corrida e atletismo: o treinador define o exercício, não a adequação do pé
Peça ao treinador o calçado indicado para a fase de treino; se o volume aumentar de forma consistente, acompanhe a evolução com avaliação podológica, não por tentativa e erro. Uma criança que começa no atletismo pode fazer corrida, saltos, lançamentos e exercícios variados, muitas vezes na mesma sessão. É o treinador quem sabe, fase a fase, o que cada etapa exige, mas essa informação diz respeito à modalidade, não ao pé: indica o tipo de exercício, não se aquele pé em particular está preparado para o suportar.
Para treinos centrados na corrida, procure sapatilhas destinadas a essa utilização, com ajuste confortável, e evite escolher apenas pela quantidade de amortecimento ou pelo aspeto “técnico” do modelo: as características do calçado devem corresponder à utilização prevista e ao tipo de treino, não ao que parece mais avançado na montra. Se forem necessários bicos de atletismo ou outro material específico, confirme primeiro a disciplina, o piso e as regras do local de treino.
Natação: o calçado não é a questão central, mas o pé continua a merecer atenção
A natação não exige calçado desportivo, mas os balneários húmidos aumentam o risco de verrugas plantares e de pé de atleta. A criança nada descalça, e o pé não fica por isso fora de causa: muda apenas o tipo de cuidado relevante.
Os balneários, os bordos de piscina e os pavimentos húmidos e partilhados são o fator de risco comum: verrugas plantares, de origem vírica (papilomavírus humano), e pé de atleta (tinea pedis), uma infeção fúngica superficial, beneficiam da humidade, do calor e do contacto direto com superfícies onde outras pessoas caminharam descalças.
Na presença de verrugas plantares, a orientação atual afasta-se da exclusão sistemática de crianças de atividades em pé descalço e desaconselha as “meias para verrugas”, cuja eficácia não está demonstrada; prefere-se, quando é preciso cobrir a lesão, um simples penso impermeável. Para o pé de atleta, a American Academy of Dermatology recomenda medidas simples: chinelas ou sandálias nos balneários, chuveiros e bordos de piscina; secar bem os pés, sobretudo os espaços interdigitais, depois do banho; meias que absorvam a humidade, trocadas assim que ficam húmidas.
Observe também as unhas depois dos treinos: unhas compridas ou mal cortadas aumentam o risco de traumatismo por impacto com o bordo da piscina ou com os pés de outros nadadores. Isto raramente exige mais do que atenção e alguns hábitos simples, mas, se surgir dor, alteração persistente da cor ou da espessura da unha, ou lesões que não regridem, justifica-se avaliação podológica.
É preciso comprar um par para cada atividade?
Não é preciso comprar um par para cada atividade. Esclareça primeiro o que a atividade exige e, sobretudo, se o pé da criança tem alguma particularidade que condicione essa resposta.
Para atividades ocasionais ou diversificadas, um calçado desportivo genérico e bem ajustado costuma bastar: o professor indica o que a atividade exige, mas se as sapatilhas que a criança já tem servem para esse fim é uma pergunta com resposta mais segura numa avaliação do que a olho, sobretudo se já houve queixas antes. Quando há treinos regulares, ou requisitos próprios de piso e equipamento, pode justificar-se calçado específico, mas essa decisão deve resultar da modalidade, da frequência e do pé, não do impulso de compra.
Esta verificação evita também gastos desnecessários. Uma chuteira pensada para um terreno diferente daquele onde a criança joga continua a ser má compra, mesmo em saldo.
Quando pedir avaliação podológica para o calçado desportivo infantil?
Há sinais que não deixam margem para dúvida: dor recorrente, coxear, deformação excessiva do calçado, má postura, recusa em treinar, ou bolhas e lesões nas unhas com frequência fora do habitual. Nestes casos, procure avaliação: trocar de sapatilhas pode não bastar para perceber o que se passa, porque o calçado é muitas vezes um agravante, não a causa.
Mas não é preciso esperar por estes sinais. Peça avaliação quando a criança inicia uma modalidade nova e mais exigente, quando o volume de treino sobe muito, ou perto de uma progressão técnica, como a passagem a pontas no ballet. É nestes momentos que a diferença entre “serve” e “é adequado” mais pesa, e um ajuste feito a tempo evita meses de desconforto que a criança raramente sabe descrever com precisão.
Na consulta, leve o calçado dos treinos e explique quando surgem as queixas, se existirem: durante a atividade, no final, só com determinado par ou também no dia a dia. Esta informação, tal como a que vem do treinador ou da professora sobre a modalidade, ajuda a completar o quadro. Mas é a avaliação do pé, não a soma dessas informações, que permite concluir se o calçado é adequado. O desgaste da sola pode observar-se, mas, isoladamente, não permite concluir que há alteração da marcha ou necessidade de palmilhas: essa é sempre uma conclusão clínica.
Avaliação do calçado desportivo infantil na PodoAntas, no Porto
Na PodoAntas, clínica de Podologia no Porto, a avaliação do calçado desportivo faz parte da avaliação podológica infantil, e não o contrário. Não se trata de aconselhar sapatilhas em abstrato: primeiro percebe-se o pé, a sua forma, o seu crescimento, o seu apoio, e só depois se relaciona com as exigências da modalidade praticada.
Não é preciso esperar que surja dor para pedir esta avaliação. Se procura orientação sobre sapatilhas, chuteiras ou outro calçado desportivo, traga o par que a criança usa habitualmente e, se as tiver, as indicações do treinador ou da professora sobre a modalidade: são um complemento útil à avaliação, não um substituto.
Marque uma consulta de podologia infantil na PodoAntas para saber se o calçado do seu filho ou da sua filha é, de facto, o adequado.
Perguntas frequentes
Como saber se o calçado desportivo do meu filho está adequado?
Experimente sempre os dois pés com as meias que a criança vai usar nos treinos, verifique se há espaço à frente dos dedos e se o calcanhar fica seguro dentro de um contraforte estável, e observe-a a caminhar ou a correr um pouco. Este teste responde apenas se o sapato serve; se é o sapato certo para aquele pé fazer aquela modalidade é uma pergunta que só a avaliação podológica responde.
As sapatilhas do dia a dia servem para o desporto?
Habitualmente não. O calçado desportivo deve corresponder às exigências mecânicas da modalidade, seja a travagem lateral do basquetebol, a aderência do futebol em piso sintético ou o impacto repetido da corrida, exigências que uma sapatilha genérica de uso diário raramente cumpre.
É preciso comprar chuteiras diferentes para relva natural e relva sintética?
Sim, sempre que possível. A relva natural pede pitons moldados, a relva sintética pitons mais curtos e numerosos, e o futsal em pavilhão pede sola lisa. Confirme o piso de treino junto do clube ou do treinador antes de comprar.
Quando devo pedir uma avaliação podológica para o calçado desportivo do meu filho?
Sempre que houver dor recorrente, coxear, recusa em treinar, bolhas ou lesões nas unhas com frequência fora do habitual, ou quando a criança inicia uma modalidade nova e mais exigente, sobe muito o volume de treino, ou se aproxima de uma progressão técnica como a passagem a pontas no ballet.
Referências científicas
Association of Paediatric Chartered Physiotherapists (APCP). Choosing Footwear for Children [Parent Leaflet]. Chartered Society of Physiotherapy; atualizado em janeiro de 2023. Disponível em: https://apcp.csp.org.uk/content/choosing-footwear-children
Buldt AK, Menz HB. Incorrectly fitted footwear, foot pain and foot disorders: a systematic search and narrative review of the literature. J Foot Ankle Res. 2018;11:43. DOI: 10.1186/s13047-018-0284-z
Hughes L, Johnson MI, Perrem N, Francis P. Guidelines for Recommended Footwear for Healthy Children and Adolescents: A Rapid Scoping Review to Characterise the Nature and Extent of Footwear Research and Clinical Policy Guidelines. Healthcare. 2025;13(13):1578. DOI: 10.3390/healthcare13131578
Watson A, Mjaanes JM; American Academy of Pediatrics Council on Sports Medicine and Fitness. Soccer Injuries in Children and Adolescents. Pediatrics. 2019;144(5):e20192759. DOI: 10.1542/peds.2019-2759
American Academy of Orthopaedic Surgeons. Athletic Shoes. OrthoInfo. Disponível em: https://orthoinfo.aaos.org/en/staying-healthy/athletic-shoes/
Children’s Hospital Colorado. When Should My Child Start Pointe Ballet? Just Ask Children’s, 22 de abril de 2020. Disponível em: https://www.childrenscolorado.org/just-ask-childrens/articles/when-should-my-child-start-pointe-ballet/

Calçado desportivo infantil: como escolher para cada modalidade
As sapatilhas do dia a dia servem para o desporto? Nem sempre. Saiba como escolher calçado desportivo infantil de acordo com o pé da criança, a modalidade, o piso e a fase de crescimento.

Pés depois das férias: sinais a avaliar no regresso à rotina
Depois das férias, os pés podem revelar sinais que ficaram menos evidentes durante a pausa. Bolhas, pressão, calosidades, unhas traumatizadas ou desconforto ao caminhar devem ser observados quando regressam com a rotina.

Dor no calcanhar ao acordar: causas e podologia no Porto
Dor no calcanhar ao acordar pode estar associada à fasceíte plantar ou a outras causas. Saiba quando procurar uma consulta de podologia no Porto.






